Eu acredito muito que nada é por acaso: estamos onde precisamos estar nesse momento da vida. Acontece que muitas pessoas não estão onde precisam, porque não estão em lugar nenhum. Isso tem se tornado uma epidemia social: pessoas vivendo no passado e pessoas vivendo no futuro. E o aqui e agora? É a única fusão espaço-tempo que podemos viver em toda plenitude e intensidade, mas estamos nos esquecendo disso. Não tem problema revisitar o passado, nem querer antecipar o futuro de vez em quando, mas se esse é um estado constante da sua consciência, por que não assumir o desafio e os riscos de viver mais no tempo presente? Talvez estejamos ausentes de nós mesmos.

Nesse mundo tecnológico a conexão que mais se busca desenvolver é a virtual, enquanto a conexão real – do olho no olho – tem ficado em segundo plano. As consequências disso? São muitas e variadas. Existem estudos que indicam o aumento do número de lesões e doenças físicas devido ao tempo dedicado às telas. Eu, psicóloga por formação, tenho percebido sintomas como a ansiedade muito mais presentes nas relações humanas. Esse sintoma é social: vem sendo desenvolvido há algum tempo por uma sociedade desumanizada, competitiva e pouco empática, da qual fazemos parte. As formas de se relacionar vêm mudando e a nossa capacidade de mantermos relações saudáveis também. E qual é a nossa responsabilidade para com a transformação desse modelo de sociedade que produz tanto adoecimento? Para mim precisamos provocar movimentos opostos a essa lógica. Por exemplo, trabalhar com o que há de espontâneo nas pessoas utilizando a dança e o movimento como recurso é um dos caminhos.

Gabrielle Roth, estudiosa da música e da dança nos anos 70 coloca em palavras a minha percepção: “Nascemos em corpos que fluem e são livres. Infelizmente, para a maioria de nós, este estado de graça tem vida curta. Julgamentos, feridas emocionais, medo e perda se alojam profundamente nos nossos músculos e ossos, nos deixando com ombros que pesam, quadris presos, braços que não alcançam, corações que batem atrás de uma muralha de pedra. Quando nos movemos nossos corpos balançam sistemas enraizados de pensamentos, velhos padrões de comportamento e respostas emocionais que já não funcionam mais. Ritmo, respiração, música e movimento se tornam ferramentas para enxergar e, logo em seguida nos libertam de hábitos que nos prendem. Quando libertamos o corpo, o coração começa a se abrir. Quando o corpo e o coração experimentarem a liberdade, a mente não estará muito atrás. E é quando botamos nossa mente em movimento que ela começa a se curar.”

Ou seja, nascemos em corpos que brincam livremente e que não passam um dia sequer sem sentir aquele frio na barriga de fazer algo pela primeira vez e aí nós crescemos… é possível trazer isso para a nossa adultez? A dança e o movimento são possibilidades, jeitos de provocar o nosso lado sensível e deixar um pouco de lado o racional. Fazendo um paralelo, tanto na dança como na terapia se manifesta nossa capacidade adormecida de perceber, figurar e reconfigurar as relações com a gente, com os outros e com o mundo, retirando a experiência da corrente automática do cotidiano e trazendo-a para o primeiro plano, onde podemos experienciá-la conscientemente. Há tanta informação disponível, mas talvez não precisemos dela. Talvez precisemos de silêncio, de vazio, para olharmos para as informações que o nosso corpo já tem e que sabe transmitir.

Eliane Brum resume: “Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.”

Precisamos de mais experiências que sejam menos verbais. Precisamos urgentemente voltar a sentir aquele frio na barriga com mais frequência. 

Texto: Mariana de los Santos.